Tenho a opinião de que todos nós nascemos criativos, uns mais e outros menos, mas que a criatividade e ludicidade é uma inconteste inerência humana. 

 

Incentivada na primeira infância pelas histórias de ninar e pela inocência infantil, a ludicidade das histórias construídas pelas mentes criativas de nossos e filhos tendem a ser desconstruídas ao longo de suas vidas pela padronização construtiva dos produtos comerciais, a uniformização escolar, as realidades cotidianas e em um momento posterior pelo trabalho operacional, mas essa realidade fica para daqui a pouco, vou primeiro contar a história da Emília. 

 

Quem como eu nasceu no século passado, contava com poucos canais de tevê, programas infantis, e o Youtube e Netflix ainda nem tinham sido pensados, em contrapartida deve ter tido a oportunidade de assistir vários ótimos programas nacionais que eram produzidos para a TV aberta. Um pelo qual tenho especial carinho e que vem migrando de mídia para alcançar a novas gerações, é a espetacular obra de Monteiro Lobato, o Sítio do Pica-Pau Amarelo. Tive a oportunidade de assistir as aventuras da turma do sítio e acompanhar Pedrinho, Narizinho, Tia Anastácia, Dona Benta, Saci Pererê, o porquinho Rabicó, a bruxa Cuca e o dileto Visconde de Sabugosa, o sabugo de milho que virou gente em suas aventuras com a sapeca boneca de pano Emília. 

  

Há alguns anos, minha filha Léia tinha algo em torno de três anos, e chegou em casa da escola, muito feliz, trazendo na mão um caninho de papel higiênico com um rostinho desenhado e alguns pedaços de pano colados em suas extremidades, ao perguntar o que era, ela me olhou com um sorriso, e respondeu com a inocência que só os pequenos tem, mas de forma quase sarcástica – “é a Emília papai!”, com o olhar de quem estava pensando “…não está vendo que é a Emília?”. Em sua lúdica inocência, era óbvio para era que aquela boneca de papel era a própria menina de pano, e minha princesa Léia protagonizou dali, diversas aventuras com sua nova amiga, criando histórias com seus outros brinquedos em seu mundo imaginário sem fronteiras ou limites, indo por vezes ao infinito e além. 

  

Embora pareça história de pai coruja, e é mesmo, é também apenas uma das centenas de oportunidades onde aprendi com um de meus filhos como trabalhar melhor e ser mais criativo. Não é incomum em um processo criativo, buscarmos referências de como as coisas são feitas e aceitas pelo mercado e seguirmos o mesmo caminho, e nem sempre é questão de fazer o mais fácil, e sim consequência de uma conformidade estabelecida. Como exemplo, vamos lembrar dos produtos a base de frango que encontramos nas gôndolas de supermercado, devido a massificação e força de mercado de fabricantes como Sadia, Seara e Perdigão, esse tipo de produto conta com quase a totalidade de suas embalagens impressas em entretons de vermelho ao amarelo, onde poucos fabricantes se atrevem a sair deste paradigma de conformidade, sob risco de ter seu produto rejeitado por “parecer estranho”, para compreender essa realidade de conformidade que nos inspiramos, basta imaginar uma embalagem de peito de frango por exemplo, toda roxa ou azul que certamente essa imagem se afastará do que temos modelo mental desse produto em uma prateleira. 

  

Sou pai de 2 homens, o mais velho se chama Raian e o meu caçula se chama Luke. Sim meu filhos mais novos se chamam Léia e Luke, e sim, sou fã de Star Wars. Embora existam quase seis anos de diferença entre a Léia e o Luke, ele naturalmente herdou uma boa coleção de brinquedos que a irmã já não brinca mais, contudo, é bem comum vêlo se divertindo com as mais inusitadas e diferentes coisas em sua criatividade infantil. Além das caixas dos brinquedos, que por vezes tornam-se um entretenimento maior que seu próprio conteúdo, sua pequena e aberta mente permite que ele passa horas brincando com um liquidificador (sim, um de verdade mas sem as lâminas), ou com um aspirador de pó e uma caixa de cereal. 

  

A falta de paradigmas permite as crianças irem muito além na percepção e visão sobre o mundo, criando em sua imaginação histórias inusitadas e desconexas, mas que em suas mentes extraordinárias, fazem absoluto sentido. Quem como eu já assistiu dezenas de vezes a animação da Disney e Pixar Toy Story, deve lembrar que várias das cenas dos filmes, retratam Andy, o “humano” do xerife Woody e do patrulheiro espacial buzz lightyear, criando incríveis histórias eram narradas no longa, com a participação inusitada de vários outros brinquedos em aventuras inventivas e não lineares, como quando em uma tradicional cena de salvamento da mocinha no trilho do trem, são agregados um porco vilão em um super dirigível, um carro voador com batatas falantes com seus três capangas alienígenas, um cachorro de mola que tem em seu corpo um campo de força e um dinossauro sendo engolido por um tsunami de macacos, é simplesmente lindo. 

 

Contudo, com o impacto diuturno de filmes, revistas e anúncios direcionados às histórias de personagens comerciais, bem como a uniformização social existente nas escolas e seus desdobramento, tendem a desconstruir de forma paulatinamente a criatividade lúdica, a substituindo pela padronização de percepções e comportamentos. Então, já que crescer e não é uma alternativa, e são poucas as pessoas que têm a oportunidade de ter em seu dia a dia estímulos frequentes de criatividade, o que podemos fazer para exercitar esta centelha criativa inerente a todos nós quando pequenos? 

 

A resposta: precisamos voltar a pensar de forma livre como uma criança. 

  

Fui convidado a planejar um espaço diferenciado e criativo em um respeitado instituto de ensino no Ceará. Era uma área em torno de 80 m2, que ficava logo na entrada da instituição e tinha como objetivo gerar uma percepção de um espaço criativo e de inovação, onde os alunos se sentissem à vontade para interagir com o ambiente. O início do projeto foi técnico, levei uma trena, mediu espaço, colunas, altura, janelas e todas as características técnicas do local que seriam relevantes em minha intervenção, passei horas sentado olhando para o local riscando esboços e idéias para o local. Tendo como inspiração os escritórios e espaço do Google, me deparei com diversas referências mas sem saber quais soluções regeriam harmonicamente uma melhor conjunto. Sem inicial verba para a criação de maquetes digitais, busquei nos meu filhos inspiração para o projeto. Peguei uma série de bonecos, blocos de montar, papéis coloridos e massinha, e sob um papelão marcada a planta sob uma determinada proporção, comecei a brincar com o ambiente, não apenas posicionando e construindo móveis com os blocos, mas literalmente brincando de contar histórias. Por meio dos brinquedos construí diversas histórias para pensar no projeto. Tinha a história da menina que queria ler um bom livro e precisava de uma boa cadeira e uma estante recheada de títulos; tinha a história do grupo de alunos que foi fazer um trabalho e precisava de uma mesa grande que coubesse toda a equipe; tinha a história do professor que levou a turma para dar uma aula diferente e tinha que acomodar mais de 30 pessoas no espaço; bem como a principal, aquela sobre do instituto que precisava de um espaço inusitado e criativo, todas, contadas com bonecos, blocos e massinhas. Ai alguém para e pensa… esse cara precisa de ajuda… está brincando de boneco em vez de trabalhar… mas vamos compreender o processo. 

  

Ao simular o projeto, ficou mais fácil de perceber proporções de móveis, circulação, limite de pessoas para os ambientes bem como organização dos móveis e sua melhor disposição, simulando ambientes de forma fácil e rápida. Ao criar as histórias, eu não apenas desenvolvi as personas do público alvo, como também compus várias jornadas dos clientes, em diferentes situações e objetivos de forma lúdica e divertida. Ao utilizar blocos coloridos, pude prever a construção harmônica ou disruptiva de um ambiente multimodular, fazendo nesse projeto, uso de técnicas de storytelling, design thinking e publicidade e planejamento, a partir da singularidade de uma brincadeira infantil de massinhas, bonecos e blocos. 

  

Já que criatividade é coisa de criança, sejamos mais inocentes e infantis na busca de soluções, pois acredito que na maior parte dos casos, a solução mais simples e óbvia tende a ser a melhor. 

 

Umehara Parente

Texto parte do livro Storytelling